domingo, 15 de março de 2009

Carta aberta de Dom Daucourt a Dom Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife no Brasil

Nanterre, 12 de março de 2009 Fonte : diocese de Nanterre (França)

Senhor bispo,

O senhor fez questão de declarar recentemente e de forma pública a excomunhão de uma mãe de família que autorizou o aborto de sua filhinha de nove anos, grávida de quatro meses, após ter sido violentada desde a idade de seis anos por seu padrasto. Também publicamente, o senhor decidiu-se pela excomunhão dos médicos que pratiacaram esse aborto. Assim sendo, vou reagir publicamente à sua intervenção mediante esta carta aberta.

Digo-lhe de imediato : para mim, o aborto é a supressão de uma vida. Por conseguinte, oponho-me a ele firmemente.

A mãe dessa menininha talvez tenha pensado que era melhor salvar uma vida do que perder três... Talvez os médicos lhe tenham dito que um pequeno útero de nove anos não pode dilatar-se indefinidamente... Não sei. O que sei é que nessa tragédia o senhor acrescentou mais dor à dor, provocando assim sofrimento e escândalo em muita gente pelo mundo afora. Diante de situação tão dramática, creio firmemente que nós, bispos, pastores na Igreja, devemos primeiramente manifestar a bondade do Cristo Jesus, o único verdadeiro Bom Pastor.

Estou certo de que Ele ama essa mãe e que Ele está em busca de homens e mulheres que a ajudem a continuar a sua caminhada apoiando-a amigavelmente, espiritualmente e, se necessário, materialmente. Estou certo de que Ele pede que se dê amor a essa menininha marcada pelo resto da vida e a sua irmã mais velha, portadora de deficiência e também violentada. Estou certo de que Ele pede à capelania da prisão onde se encontra o padrasto para aproximar-se dele a fim de que ele se arrependa, se converta e se torne algum dia um ser humano de verdade. Estou certo que o Cristo estimaria também que o senhor, se puder, fale com os médicos que praticaram o aborto, porque como os quarenta ginecologistas e obstetras com quem me encontrei meses atrás e com os quais não estou de acordo em tudo, a maioria deles apreciam ser ouvidos assim como apreciam ouvir outros pontos de vista, posto que eles também vivem dramas de consciência.

Senhor bispo, ajudemo-nos uns aos outros para sermos antes de mais nada homens da esperança em Deus e em todo ser humano !

Tenho relação de amizade e de colaboração com muitos evangélicos que também se opõem, como o senhor e eu, ao aborto. Mas nem por isso eles ficam proclamando condenação pública. Talvez seja essa uma das razões pelas quais as comunidades evangélicas atraem hoje tantos católicos, particularmente no Brasil. Constato também que a opinião pública não entende que se excomungue. Ela vê nisso uma condenação das pessoas, e não uma proposta de cura e de conversão. Penso, pois, que devemos encontrar outros meios para dizer a nossas comunidades que o comportamento ou as palavras desse ou daquele católico não estão de acordo com o que a Igreja compreende e crê ser a vontade de Deus.

Não posso deixar de dizer-lhe também que pergunto-me como é que se pode afirmar que o estupro é menos grave que o aborto que suprime a vida no ventre de uma mãe. Mulheres violentadas confiaram-me o seu drama. Algumas delas conseguiram aprumar-se e avançar na vida carregando a lembrança de suas feridas, que nunca vão desaparecer completamente. Mas outras, embora fisicamente vivas, foram assassinadas no que nelas há de mais íntimo, e não conseguem reviver. A vida, como o senhor bem sabe, não é apenas física.

Ainda não pude ter em mãos o texto do cardeal Re, mas o apoio que, segundo a mídia, ele lhe deu, em nada modifica minha reação de pastor. E para a clareza das relações entre bispos, estou enviando cópia desta carta ao senhor cardeal Re.

Peço que acolha, senhor bispo, meus sentimentos entristecidos, ainda que respeitosamente fraternais, e de igual modo esteja certo de minhas orações pelo senhor e por aquelas e aqueles que, de perto ou de longe, estão envolvidos com o drama dessa menininha.

+ Gérard Daucourt, bispo de Nanterre

12 de março de 2009

Um comentário:

Joao Fabricio disse...

PARABÉNS A DOM DAUCOURT PELO SUA POSTAGEM, REFLETINDO A TODOS OS LEITORES E PRINCIPALMENTE AOS BISPOS DO MUNDO INTEIRO O VERDADEIRO PAPEL DE JESUS COM RELAÇÃO A ESTE CASO.
NÃO CABE A NÓS HUMANOS JULGAR, MAS SIM CABE A NÓS TER MISERICÓRIDIA, SER EXEMPLO VIVO DE JESUS, COM PALAVRAS MAS EM ESPECIAL COM GESTOS CONCRETOS.
NÃO A HIPOCRESIA!!!!!!!!!!!!
" SEGUIR JESUS É FÁCIL, DIFÍCIL É SER DÓCIL E OBEDIENTE AS SUAS PALAVRAS!"