terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Silêncio dos Inocentes


Ao tratar da Filosofia Personalista o faremos de modo breve buscando a simplicidade na apresentação prática dos conceitos, o quanto for possível.
Retomamos inicialmente uma questão já apresentada: existem seres humanos que são mais pessoas e outros quer são menos pessoa? A larva que se transforma em borboleta deixou de ser o que era? Ou apenas mudou de forma? Sendo larva ela era menos do que é como borboleta, ou ela apenas adquiriu qualidades novas? Comparando-se com uma criança, um jovem ou idoso o embrião humano é diferente na essência ou apenas na aparência? É notável a diferença na forma (acidente, aparência); mas não há diferença naquilo que o torna pessoa. O ser humano mantém a sua identidade seja como zigoto, mórula, embrião, seja como criança, jovem ou em qualquer outra fase. O ser humano é o mesmo! Ou seja, o embrião é humano desde a fecundação. Desde a fecundação o ser humano possui uma identidade nova, única, irrepetível, mesmo que não possua todas as características de um ser humano adulto. Para verificarmos melhor o dito acima, vejamos como entender o adjetivo rationalis (racional):
O adjetivo rationalis (racional) – [...] para Aristóteles – não indica apenas a inteligência e a racionalidade (em exercício), mas indica, no sentido mais amplo, o raciocínio (a faculdade de...) e o pensamento, a palavra e a linguagem, a comunicação e a relação, a liberdade e a interioridade etc. Por isso, todo ser humano, é só o ser humano, é pessoa. E o “ser pessoa” não depende do grau de presença de certas características ou funções (indicadores de pessoa), mas da natureza ontológica do ser. (CIPRIANI, G. O embrião humano: na fecundação o marco da vida. São Paulo: Paulinas, 2007. p.52)
É preciso salientar que, embora se complementem “ser pessoa” é diferente da “personalidade”. A “personalidade” refere-se as qualidades adquiridas ao longo do tempo e aos atos pessoais. Constitui-se de um processo no qual se forma o “eu psicológico, sociológico...” da pessoa. A personalidade, portanto, está diretamente ligada ao “agir da pessoa”.
O “ser pessoa” é um evento instantâneo, o “eu ontológico” (ser pessoa) refere-se a pessoa em si. O ser pessoa é muito mais que o agir ou a aparência do ser humano. Um ser humano é pessoa desde o momento da fecundação até o declínio natural da vida. Isto é, o ser humano é pessoa de modo tão instantâneo, quanto o início da vida. Portanto, “pessoa” é além e mais do que seu agir. Ou seja, você é pessoa desde o primeiro momento de sua existência como ser humano. Mesmo que você não tivesse no momento da fecundação e depois como zigoto (...) a aparência e as qualidades que tem atualmente de modo algum você era menos pessoa do que é hoje.
O embrião não é potência de pessoa, não vai ser pessoa. É pessoa ex natura (por sua natureza). Ele (o ser humano como células-tronco embrionárias) já é em ato pessoa, pois não pode ser sem ser “já” pessoa por sua natureza.
O ser humano como células-tronco embrionárias (zigoto, embrião....) é, no entanto, potência no sentido em que é um “potencial médico”, “potencial engenheiro”, “potencial advogado”, etc, mas não uma “potencial pessoa” , pois “já é” pessoa (Cf. op. cit., p. 54) Podemos dizer, então, que o embrião humano é ‘em potência’ diante do exercício da racionalidade, mas não que estamos diante de um ‘ser humano em potência’, no sentido de um ‘possível ser humano’.” (op. cit., p. 54) É o caso dos gametas feminino e masculino, antes da fusão são simplesmente um “possível homem” e uma “possível mulher”. Essa reflexão encontra base na biologia:
De fato, o biólogo, no processo de desenvolvimento e amadurecimento do embrião humano, descobre que não há saltos qualitativos nem mudanças substanciais, mas continuidade: o embrião mantém constantemente a sua identidade, individualidade e unicidade, permanecendo constantemente o mesmo idêntico indivíduo ao longo de todo o processo que inicia com a fusão dos gametas. (op.cit., p. 55).
Ao final destas reflexões apresentadas em quatro artigos esperamos ter oferecido uma oportunidade de reflexão mais demorada e cuidadosa sobre esta delicada questão. Evidentemente a problemática não está esgotada. No entanto, acreditamos que o ser humano é pessoa desde a fecundação até o declínio natural da vida. Portanto, desde a fecundação o ser humano é detentor de direitos. Cada vez mais urge defender a vida desde a sua origem. Teríamos o direito de tirar a vida de uma pessoa humana simplesmente por ser diferente de nós? A vida humana não é um copo plástico que usamos e descartamos. As coisas nós usamos, as pessoas nós amamos e cuidamos, especialmente quando mais indefesas. Podemos permitir este genocídio sem que nossas consciências ouçam o apelo ainda silencioso daqueles que ainda não são capazes de se comunicar? O que está prestes a acontecer (e já está acontecendo) é o sacrifício de inocentes e eles só têm o silêncio para se defender. Não nos permitamos “coisificar” as pessoas, pois assim também nós não seremos mais do que coisas, seremos apenas um “copo descartável”.

2 comentários:

Cleusa disse...

Olá. Blz de artigos. Hum, pra mim matar um chimpanzé é tão grave qto matar um humano. Mas pq eu mato mosquitos? Belotto, vc é cruel. hehe Bj

BELOTTO, São Paulo, 2008 disse...

"Parece-me mais grave matar um chimpanzé do que matar um ser humano gravemente deficiente, que não é pessoa." - Frase de SINGER.
Segundo esse autor um "chimpazé" sem deficiência seria mais "pessoa humana" que um "ser humano" de tal a ser reconhecido como detentor de "direitos". Ao passo que um "ser humano com dificiência" não teria direito algum. O mosquito você mata porque ele não tem direitos ou porque lhe agride. No entanto, diante de uma pessoa deficiente (segundo essa corrente de pensamento) o mosquito teria mais direitos que ela. Ao passo que o mesmo mosquito diante de um ser humano sem deficiencia, portanto, pessoa humana ele não teria direito algum!

Quanto um mosquito nos faz refletir.. rsrs