terça-feira, 25 de setembro de 2007

O DESAFIO DE EDUCAR



A humanidade, ao longo dos séculos, tem alcançado grandes êxitos nas várias áreas do conhecimento. Porém, nunca avançamos tanto nas ciências como no século XX e neste início de milênio. Em particular nos últimos quinze anos fomos levados a rever diversos conceitos, principalmente no que se refere à moral e à ética. Fazer uma análise do caminho percorrido e do que haveremos ainda de desvelar não é uma tarefa fácil. Ainda mais quando tratamos de pressupostos que exigem uma discussão mais profunda sobre a sua importância na globalidade do ser humano.

Diante dessa situação na qual nos encontramos destacamos um aspecto que, de certo modo, atinge ou atingirá os diversos momentos do “ser” e do “fazer” humanos: falamos da Educação. Educar nunca foi tão desafiador. Os antigos paradigmas educacionais muitas vezes não atendem as necessidades dos jovens ou não conseguem ser uma proposta atraente para estes. Por isso é mister que repensemos os nossos modelos e a nossa caminhada à luz de alguns aspectos da pedagogia antiga – por exemplo da Paidéia grega – ou mesmo atualizado pedagogias recentes (séculos XVIII – XX).

Tudo isto para oportunizar o surgimento de novas pedagogias que dêem uma base sólida para a Educação que queremos. Paulo Freire afirmou certa vez que não existe pedagogia, isto é, teoria que implica os fins e os meios da ação educativa, que não tenha, implícita ou explicitamente formulados, um conceito de homem e um conceito de mundo. Neste sentido queremos explicitar alguns elementos que julgamos importantes para um agir educativo holístico, isto é, que percebe as várias realidades que envolvem a pessoa humana e o mundo em que ela vive.

Dom Bosco, educador do século XIX, formulou um ideal antropológico que é bastante atual e desafiador: “Formar bons cristãos e honestos cidadãos”. Seu objetivo era formar um jovem para a Igreja, ou seja, alguém que participasse ativamente da vida de comunidade e de fé, sendo na sociedade a imagem de Cristo. E formá-lo, naquele contexto – período de unificação da Itália, Revolução Industrial, imigração para o “Novo Mundo”, etc - , para o novo Estado e a nova Sociedade que estavam surgindo na Itália. Organizou uma Pedagogia esforçando-se para que a educação confessional e a pública pudessem conviver sem conflitividade desnecessária e contraproducente. Sua pedagogia está fundada no que chamou de Sistema Preventivo. Este Sistema está firmado sobre um tripé: Razão, Religião e Amorevolezza.

O que nos remete ao que a Paidéia grega chamava de Logos (Razão), Mythus (mito, religião) e Pathos (sentimento). Acredito em uma educação fundamentada neste tripé e que sem ele a educação perde-se num puro formalismo em que Educador e Educando mantém uma relação de aparências e muitas vezes marcada pelo autoritarismo de um e a indisciplina de outro. Religião não só no sentido de se ter uma crença elaborada. Religião engloba os princípios de ética, responsabilidade e busca pelos valores essenciais, como solidariedade, justiça, paz, etc. “Formar bons cristãos e honestos cidadãos”. Razão, enquanto busca do conhecimento, e este como patrimônio universal não pode ser negado a ninguém. Amorevolezza é uma palavra italiana que não tem tradução exata para o português, mas aproximadamente é amor, afeto, carinho, etc.

 Não há educação sem amor, sem uma relação de amor entre o educando e o educador. “Educação é obra do coração”, dizia-nos Dom Bosco. Podemos ainda recordar que a Paidéia grega apresenta uma quarta dimensão do ideal humano grego que é o Eros. Este aspecto, embora não explicitado na pedagogia de Dom Bosco, percebemos que a dimensão da corporeidade, da alegria, do fazer e do fluir das manifestações artísticas marcam fortemente a tradição salesiana (chama-se deste modo pelo fato de Dom Bosco ter como padroeiro de sua pedagogia São Francisco de Sales, daí salesiana). È verdade que a educação pública não está obrigada a seguir a pedagogia salesiana no seu caráter confessional; contudo ela apresenta-se como uma proposta educativa atraente aos jovens.

De certo modo ela está em consonância com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB): “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art. 2 da LDB). Quando se fala em “pleno desenvolvimento do educando” as quatro dimensões estão incluídas propriamente. E até mesmo a religiosa tanto que o ensino religioso está previsto e regulamentado na legislação brasileira. Quando lemos “preparação para o exercício da cidadania” logo lembramos que Dom Bosco falava “bons cristãos e honestos cidadãos”. E finalmente a “qualificação para o trabalho” está profundamente presente na pedagogia salesiana. A laboriosidade é aspecto essencial para o pleno desenvolvimento do jovem. Em seu Dom Bosco lutou para garantir direitos aos jovens trabalhadores de seu tempo e através de cursos proporcionava-lhes uma qualificação profissional.

Enfim, a pedagogia salesiana não se esgota aqui. A reflexão que trouxemos ao leitor quer mostrar que uma Educação que não é construída sobre valores sólidos não cativa os jovens. Se o educador não estiver atento às novas realidades e ao complexo mundo juvenil enfrentará grandes dificuldades. O agir educativo nunca acontece a partir de um só indivíduo, mas do encontro entre as subjetividades que se complementam na busca do conhecimento, da ética, da moral e do desenvolvimento integral de ambas.

Um comentário:

Joao Cesar disse...

Parabéns pelo artigo.

Há tempos venho pesquisando sobre os salesianos e a educação em geral (não somente no meio deles). Já li muita coisa interessante, mas este artigo supera tudo, é uma belíssima atualização da ação de São João Bosco na Educação, com bases filosóficas na Grécia e atualizado para a realidade laica do ensino brasileiro.

Parabéns ao autor!