segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O AMOR EM CRISE?

O mundo das relações humanas vem sofrendo grandes mudanças ao longo dos séculos, mudam-se os costumes, as maneiras de interagir, de aproximar-se do outro. Contudo, o que nos move em direção ao outro é a meu ver ainda o mesmo magnetismo dos primórdios da humanidade: o desejo de ser amado, ou seja, de não sentir-se sozinho e sentir-se amado. Porém, as relações tornam-se cada vez mais superficiais e de um modo geral este desejo de sentir-se amado não vem sendo satisfeito, e ao contrário do que seria o melhor, estamos buscando cada vez mais suprir este desejo com relações pouco consistentes e comprometidas. O subjetivismo trouxe-nos um grande bem, que foi o reconhecimento de cada ser humano como único e insubstituível; no entanto, desenvolveu-se negativamente para o que hoje chamamos de individualismo, no qual o que importa é simplesmente o “eu”, o “outro” deve estar ao meu serviço, deve suprir as minhas necessidades, se ele não o faz, descarto-o como um objeto qualquer. Isto se demonstra claramente no relacionamento temporário classificado por nós mesmos como “ficar”. A cultura do “ficar” é a cultura do descartável, do hoje preciso te usar e amanhã não quero nem saber de você; hoje transo com você, mas isso não significa que eu te ame. Este fato é, todavia, a demonstração clara de que o ser humano está sedento de amor, mas o busca descontroladamente em relações inconsistentes e que não o satisfazem plenamente. A sexualidade foi banalizada, de tal modo que não há mais necessidade de um vínculo amoroso entre duas pessoas para que aconteça o ato sexual. É justamente está cultura que nos leva hoje aos divórcios, perdeu-se o sentido do compromisso. Hoje muitos não casam, “ficam” por dois meses, três ou quinze anos. Entendo que a sociedade de hoje está esquecendo como se ama de verdade. O que não significa que “antigamente” as coisas eram diferentes; ao contrário, o homem em toda a sua história muitas vezes não soube compreender os apelos do amor. Mas isso não significa igualmente que o amor inexista ou que não seja possível de acontecer de um modo profundo e incondicional. O mesmo se pode dizer da fidelidade conjugal. John Powel, sacerdote jesuíta e escritor americano, publicou o livro “Amor Incondicional” (Ed. Crescer). Neste, apresenta o que julgamos ser a necessidade urgente de reinventar o amor, no sentido de que sejamos capazes de superar a cultura banal e desumana do descartável. Num primeiro momento, precisamos notar que o amor não é um sentimento, embora de um modo geral nasça sempre de um sentimento, seja ele a paixão ou a amizade, por exemplo. Amor/Amar é antes de tudo uma decisão. Um esposo, uma esposa, deveria ser capaz de dizer para o seu cônjuge o seguinte: “eu decido por você, eu quero amar você. Pode ser que no mundo exista, em algum lugar, uma pessoa ‘melhor’ para mim, mas é a você que eu escolhi para amar. Não posso prometer que não tenho ou terei defeitos, mas posso prometer que farei o possível para dar-lhe o que há de melhor em mim”. Quando se ama de verdade, existe uma decisão consciente e livre que fortalece o amor. É essa decisão que não me deixará, nem deixará com que você seja infiel. Se não existe esta decisão amorosa pelo outro, deixamo-nos levar facilmente pelos instintos, pelo prazer “des-compromissado”. Amar é uma decisão com compromisso. Amor incondicional é não impor condições. É reconhecer que o outro não é perfeito, é escolher e decidir-se pelo outro (amar) do jeito que é. O que faz que um casal se separe logo na primeira dificuldade? É que um não optou pelo outro com amor incondicional. O amor acaba vencido pelo individualismo egoísta e infiel. Poderíamos perguntar ainda, de modo diferente, porque o divórcio fez-se necessário nos dias atuais? Porque estamos cada vez mais sem Deus, o sacramento, para muitos, tornou-se artigo de ”shopping center”, e sem sombras de dúvidas por causa da dureza dos nossos corações (Mt 19,3-9), cada vez mais sedentos de amor, e incapazes de amar incondicionalmente.

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