![]() |
Sorrisos de Dom Bosco - p. 21 (do Original) |
Frequentando
feiras e circos com sua mãe, Joãozinho, tinha muitas vezes observado que o povo
costumava extasiar-se diante das proezas de qualquer embusteiro
prestidigitador.
Essa
descoberta foi para ele uma revelação: apareceu-lhe como um meio fácil de
atrair e prender a atenção dos outros. Sem demora, pediu licença à mãe para pôr
em prática o seu projeto que consistia em aprender as proezas dos mágicos ilusionistas[1].
Desde
então, começou a prestar tanta atenção às mágicas, que chegou a surpreender
todos os gestos, a descobrir todas as astúcias e a perceber a destreza
necessária para executá-las.
Voltando
para casa, repetia todos os jogos que tinha visto e exercitava até conseguir
fazê-los perfeitamente.
É fácil
imaginar os choques, os tombos, os trambolhões aos quais se sujeitava quando
queria imitar os artistas e dançar sobre a corda, dar saltos mortais, e andar
de mãos no chão e pernas para o ar. Porém, com constância e com agilidade que
possuía, logo o conseguia; tornou-se assim habilíssimo em toda a espécie de jogos,
ginástica e mágicas. Depois de suficientemente adestrado, começou a dar
espetáculos, de preferência aos domingos.
Ia para
um prado e lá amarrava uma corda ao tronco de duas árvores; depois, preparava uma
mesinha, arrumava uma cadeira e estendia na relva o tapete destinado a servir
para os saltos mortais.
Todos
corriam para vê-lo, ansiosos e cheios de curiosidade.
Quando tudo
estava pronto e povo reunido na expectativa da grande novidade, ele fazia
recitar o terço e cantar um hino de louvor; depois trepado na cadeira, repetia
o sermão que ouvira de manhã na Missa, enfeitando-o com fatos e exemplos
instrutivos. Se porventura, algum dos presentes desse mostras de
descontentamento, João empertigado na cadeira como um rei no seu trono, forçava
o rebelde à obediência, com gestos resolutos. Só depois disso é que dava início
ao espetáculo.
Dar
saltos mortais, andar de mãos no chão e pernas para o ar, engolir moedas para
ir busca-las no nariz de algum espectador, multiplicar bolinhas e ovos,
transformar água em vinho, matar um frango e fazê-lo ressuscitar, eram para ele
coisas simplicíssimas, de todo dia. Andava pela corda tão bem como por um
caminho, pulando e dançando; pendurava-se a ela ora por um pé, ora pelos dois,
muitas vezes por ambas as mãos, outras por uma só. Pulava depois novamente para
cima da corda, com agilidade surpreendente, acompanhando os exercícios com
saídas espirituosas, anedotas e brincadeiras agradabilíssimas.
Todos o
admirava extasiados, riam a mais não poder e aplaudiam ao artista com vivas
entusiastas.
E ele,
esbaforido e sem fôlego, interrompia de vez em quando o espetáculo, ocupando os
interessados com um canto de louvor ou com qualquer conselho sábio.
Uma única
pessoa fazia-se de desentendido e de sabichão. Era seu irmão Antônio que
caçoava com ele, dizendo-lhe:
- Que grande bobo você é! ... por que é que se
faz de ridículo diante dos outros?
Mas João
suportava sem protestar os escárnios do irmão, pensando no bem que operava, ria
das suas troças.
FONTE: CHIAVARINO, SORRISOS de DOM BOSCO. VI Edição, Ed. Paulinas, São Paulo, 1959, o "sorriso" de hoje encontra-se à páginas 20 - 23
[1]
O termo usado no texto original é “charlatão” e “charlatães”. Como hoje a palavra
tem um sentido bastante negativo preferimos usar o termo “mágico” e/ou “ilusionista”, pois
esses termos aproximam-se de modo mais adequado daquilo que foi para Dom Bosco
em seu tempo. O restante do texto aparece como no original.